Perspectives

O artigo ficou barato

Por Fabiano Filho, MD · · 3 min de leitura

Submeti o manuscrito às 7h32 de um sábado, pelo hotspot do celular, porque o meu provedor de internet de casa não consegue abrir a página de login da editora. Era um benchmark de cinco modelos de previsão em catorze anos de óbitos cardiovasculares mensais em São Paulo: estatística clássica, gradient boosting e um foundation model, com intervalo de bootstrap em cada comparação. Quatro autores tinham dado o aval. A rejeição chegou no mesmo dia, antes de qualquer revisor ver o texto.

O editor foi de uma franqueza incomum. As submissões tinham dobrado desde o meio do ano, depois de uma alta de 40% no ano anterior, e a revista só consegue publicar de 100 a 150 artigos por ano. O editor percebeu que o artigo tinha sido escrito, e em boa parte construído, com agentes de IA, e julgou a contribuição pequena demais "diante do que se consegue fazer com IA agêntica".

O editor tinha razão nas duas coisas, e eu consigo mostrar. Naquela noite rodei um script no manuscrito. Sete mil palavras, vinte e cinco ocorrências de "rather than". Oito títulos de seção que anunciavam uma conclusão, como pequenos comunicados de imprensa. Uma seção de Métodos que contava como tínhamos depurado o nosso próprio pipeline, que é o que um agente faz quando transforma o log da sessão em texto. Quinze lembretes de como tínhamos fixado os critérios com antecedência e cuidado. A palavra "survive" seis vezes.

A ciência tinha o mesmo problema do texto. Cinco modelos prontos numa única série pública são uma tarde de trabalho para um agente de programação. Fizemos com cuidado, com intervalos e testes pareados. Cuidado agora é o mínimo.

Entendo por que isso dói. O artigo é a unidade da carreira científica há muito tempo, e para um doutorando o currículo é uma lista deles. A revisão por pares já estava no limite, com editores correndo atrás de revisores por meses. Agora a oferta de manuscritos com cara de competentes cresce muito mais rápido do que a de pessoas capazes de lê-los.

É assim que penso no agente hoje. É um coautor muito rápido, que nunca cansa, que leu tudo e que nunca atendeu um paciente. Nunca sentou com a equipe de uma secretaria estadual de saúde que decide quantos leitos de unidade coronariana manter em julho. Não sabe que os registros em partes do Norte e do Nordeste ainda perdem óbitos que São Paulo registra, nem que a proporção de causas mal definidas acompanha a qualidade do sistema local. Vai escrever uma seção de Métodos linda para uma pergunta que ninguém precisava responder.

Então o benchmark ficou barato, e com ele as figuras, o texto, a revisão de literatura e até a estatística bem feita. O que continua escasso é a pergunta, os dados que custaram trabalho de verdade para alguém coletar ou vincular, as decisões de desenho que só o conhecimento do domínio defende e a voz de quem vai usar o resultado.

Por um lado, isso parece desanimador. Os editores estão aprendendo a reconhecer as marcas de um agente em trinta segundos, e algum trabalho bom vai ser descartado junto com o ruim. Laboratórios pequenos no Brasil já disputam atenção em revistas editadas na Europa e nos Estados Unidos, e um novo motivo para rejeição sem revisão não ajuda.

Agora veja o que o agente fez por nós na mesma noite. A nossa própria Discussão dizia que um foundation model deveria fazer mais diferença onde as séries são curtas e muitas: municípios, faixas etárias, causas definidas há pouco. Nunca tínhamos testado isso, porque montar e conferir centenas de séries à mão estava além de uma equipe pequena. Não está mais. A segunda versão cobre as 27 unidades da federação, quatro grupos de causas cardiovasculares, sexo e idade, perto de 650 séries, com taxas populacionais e intervalos calibrados como desfecho principal. O download de catorze anos de declarações de óbito começou poucas horas depois da rejeição. Uma equipe pequena agora consegue fazer a pergunta que antes exigia um consórcio.

Dois tipos de cientista deveriam se preocupar. O primeiro usa agentes para produzir os mesmos artigos mais rápido, que foi o erro que cometemos; editores e leitores percebem. O segundo se recusa a usá-los, passa meses no que um colega faz num fim de semana e ainda disputa as mesmas 150 vagas.

O agente já consegue escrever o artigo. Traga para ele uma pergunta que valha o trabalho.